terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror



OK, vamos falar de Guerra ao Terror. Numa das trajetórias mais esquisitas que um oscarizável já teve por aqui, o filme de Kathryn Bigelow foi lançado agora nos cinemas depois de ter saído em DVD e ter passado até em um canal de TV a cabo. Outros filmes concorrentes à estatueta careca já foram relançados antes, dois casos recentes são O Labirinto do Fauno e Crash. Mas estes pelo menos passaram no cinema, foram mal de bilheteria e depois foram relançados com sucesso. Guerra ao Terror foi direto para o DVD porque os distribuidores aqui no Brasil não deram nada pelo filme. Claro que foi uma mancada comercial, mas eu me pergunto se a decisão em si foi equivocada.

O longa é, sem dúvida, bem dirigido. É correto, sim. Mas, para mim, um filme absolutamente normal. Não consigo enxergar a genialidade que fez a Sociedade de Críticos Americanos elegê-lo melhor filme de 2009. É certo que ele tem alguns diferenciais em relação à costumeira patriotada cega que costuma brotar dos filmes de guerra ianques, mas eu realmente não acho que as qualidades do longa estejam à altura da babação que tem sido feita em torno dele. E vamos combinar que indicar Jeremy Renner ao Oscar de melhor ator foi uma das maiores supervalorizações já cometidas pela Academia. O Sherlock Holmes de Robert Downey Jr. e o Desinformante de Matt Damon são apenas dois exemplos de gente que fez coisa bem melhor do que Renner nesse ano que passou.

Guerra ao Terror mostra uma espécie de contagem regressiva dos dias que faltam para uma equipe que desarma bombas no Iraque voltar para casa. Na primeira e impactante seqüência, um dos integrantes vai pelos ares. No dia seguinte, ele é substituído pelo viciado em adrenalina William James. James constantemente desrespeita as medidas de segurança e põe em risco seus dois colegas: o sargento Sanborn, que preza as regras e quer fazer tudo dentro dos conformes, e Eldridge, um soldado tenso que tem certeza de que vai morrer a qualquer momento.

O problema é que o conflito não vai além disso: do choque das personalidades desses três homens dia após dia. O caráter apolítico do roteiro é uma faca de dois gumes: se, por um lado, evita o irritante discurso imperialista, por outro não dá uma dimensão maior ao que os personagens representam. O filme impacta logo no princípio, mas depois de algumas bombas desarmadas, você fica com a impressão de que a trama já se esgotou. E o que pensar de Guy Pierce e Ralph Fiennes, com seus nomes estampados no cartaz, entrarem no filme só para morrer? Sem contar o trecho do discursinho de James para o filho, que nos deixa imaginando onde a diretora queria chegar.

Na briga ente ex-marido e ex-mulher – ou seja, este filme e Avatar – fico com James Cameron. Nem acho Avatar o melhor filme de todos os tempos, mas suas qualidades ficam realmente gritantes se fizermos uma comparação entre estes dois campeões de indicações. Cameron criou algo novo ali. The Hurt Locker, ainda mais prejudicado pelo título bobo em português, é um filme bem-feito e esquecível. Cheio de som e fúria, mas significando muito pouco.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Rumo ao Oscar 2010


Os indicados ao Oscar 2010 foram conhecidos na manhã de hoje. Sem nenhuma grande surpresa, apenas endossando premiações anteriores, Avatar e Guerra ao Terror largam na frente, com nove indicações cada. De inusitado só o fato dos diretores dos longas – James Cameron e Kathryn Bigelow, respectivamente – já terem sido casados. Atrás deles, correndo atrás do prejuízo, seguem os Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino, com apenas uma indicação a menos. Amor sem Escalas e Preciosa emplacaram seis e o alternativo Distrito 9, quatro. Como se pode notar pela lista abaixo, este ano tem indicação para todos os gostos. Outra novidade é a indicação de dez títulos para melhor filme, ao invés dos tradicionais cinco. Os vencedores serão conhecidos na cerimônia do dia 7 de março, este ano comandada por Steve Martin e Alec Baldwin. Enquanto isso, confiram a lista completa de indicações:

Filme
Amor Sem Escalas
Avatar
Bastardos Inglórios
Distrito 9
Educação
Guerra ao Terror
Preciosa
Um Homem Sério
Um Sonho Possível
Up - Altas Aventuras

Direção
James Cameron (Avatar)
Jason Reitman (Amor Sem Escalas)
Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)
Lee Daniels (Preciosa)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)

Ator
Colin Firth (Direito de Amar)
George Clooney (Amor Sem Escalas)
Jeff Bridges (Crazy Heart)
Jeremy Renner (Guerra ao Terror)
Morgan Freeman (Invictus)

Atriz
Carey Mulligan (Educação)
Gabourey Sidibe (Preciosa)
Helen Mirren (The Last Station)
Meryl Streep (Julie & Julia)
Sandra Bullock (Um Sonho Possível)

Ator Coadjuvante
Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)
Christopher Plummer (The Last Station)
Matt Damon (Invictus)
Stanley Tucci (Um Olhar do Paraíso)
Woody Harrelson (O Mensageiro)

Atriz Coadjuvante
Anna Kendrick (Amor Sem Escalas)
Maggie Gyllenhaal (Crazy Heart)
Mo'Nique (Preciosa)
Penelope Cruz (Nine)
Vera Farmiga (Amor Sem Escalas)

Roteiro Adaptado
Amor Sem Escalas
Distrito 9
Educação
In The Loop
Preciosa

Roteiro Original
Bastardos Inglórios
Guerra ao Terror
O Mensageiro
Um Homem Sério
Up - Altas Aventuras

Longa de Animação
Coraline e o Mundo Secreto
O Fantástico Sr. Raposo
A Princesa e o Sapo
The Secret of Kells
Up - Altas Aventuras

Direção de Arte
Avatar
O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus
Nine
Sherlock Holmes
The Young Victoria

Fotografia
Avatar
Bastardos Inglórios
A Fita Branca
Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Guerra ao Terror

Figurino
Brilho de Uma Paixão
Coco Antes de Chanel
O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus
Nine
The Young Victoria

Montagem
Avatar
Bastardos Inglórios
Distrito 9
Guerra ao Terror
Preciosa

Filme Estrangeiro
Ajami (Israel)
A Fita Branca (Alemanha)
Um Profeta (França)
O Segredo dos Seus Olhos (Argentina)
A Teta Assustada (Peru)

Trilha Sonora
Avatar
O Fantástico Sr. Raposo
Guerra ao Terror
Sherlock Holmes
Up - Altas Aventuras

Canção Original
Almost There (A Princesa e o Sapo)
Down in New Orleans (A Princesa e o Sapo)
Loin De Paname (Paris 36)
Take it All (Nine)
The Weary Kind (Crazy Heart)

Edição de Som
Avatar
Bastardos Inglórios
Guerra ao Terror
Star Trek
Up - Altas Aventuras

Mixagem de Som
Avatar
Bastardos Inglórios
Guerra ao Terror
Star Trek
Transformers: A Vingança dos Derrotados

Efeitos Especiais
Avatar
Distrito 9
Star Trek

Maquiagem
Il Divo
Star Trek
The Young Victoria

Documentário Longa-Metragem
Burma Vj
The Cove
Food Inc.
The Most Dangerous Man In America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers
Which Way Home

Documentário Curta-Metragem
The Last Campaign of Governos Booth Gardner
The Last Truck: Closing of a GM Plant
Music by Prudence
Province
Rabbit à la Berlin

Curta de Animação
French Roast
Granny O´Grimn´s Sleeping Beauty
The Lady and the Reaper (La Dama e la Muerte)
Logorama
A Matter of Loaf and Death

Curta Live Action
The Door
Instead of Abracadabra
Kavi
Miracle Fish
The New Tenants

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Invictus



Escrito em 1875 pelo britânico William Ernest Henley, o belo poema que dá título ao novo longa de Clint Eastwood tem um fecho bastante afirmativo: “eu sou o mestre do meu destino, eu sou o capitão da minha alma". Mas Invictus, o poema, não é citado no filme gratuitamente: além de cair como uma luva como forma de incentivo para a trama relatada, era um dos textos favoritos de Nelson Mandela durante os 27 anos que este passou recluso na penitenciária de Robben Island. Entre um dia e outro de trabalhos forçados, Mandela buscava forças nas inspiradoras palavras de Henley. Pelo menos é isso que nos conta Invictus, o filme.

O longa é ambientado em 1995, quando Mandela, recém-eleito, patinava para diminuir o abismo de ressentimentos entre a minoria branca que acabara de deixar o poder e a maioria negra que, após anos de apartheid e humilhações, estava sedenta em mostrar aos brancos quem mandava no país agora. Acreditando ser capaz de unificar a população por meio do esporte, Mandela aproveita o fato do país estar sediando a copa mundial de rúgbi e inicia uma maciça campanha de apoio ao desacreditado time da África do Sul. Como o esporte é considerado “de branco”, a população negra costuma torcer contra a própria seleção. Para mudar esse panorama e iniciar seu sonho de construir uma nação integrada, Mandela une forças com François Pienaar, o capitão da equipe.

Invictus não é exatamente um filme sobre Nelson Mandela, e muito menos sobre rúgbi. É um filme sobre a redenção e a grandeza, assim como o foram seus dois últimos filmes, Menina de Ouro e Gran Torino – cito estes como seus trabalhos mais recentes de caso pensado, já que não considero A Troca um legítimo Eastwood. E tampouco se trata da grandeza de Mandela como líder e sua política de conciliar ao invés de revidar, mas daquele outro tipo de grandeza presente em todo ser humano, capaz de realizar proezas impossíveis caso receba o estímulo correto. Como diz Freeman/Mandela numa cena, “este país tem sede de grandeza”. E aqueles jogadores descobrem que já não lhes basta a torcida de uma minoria. Eles precisam do amor do país inteiro, mesmo que tenham passado anos ignorando a existência de grande parte dessa população.



Morgan Freeman, que dizem ter sido escolhido pelo próprio Mandela para representá-lo na tela, cria diante de nossos olhos a ilusão de simplesmente transformar-se no retratado. Das indefectíveis camisas estampadas ao modo de andar, Freeman é todo Mandela. Matt Damon também tem bom desempenho, embora seu personagem tenha função coadjuvante. Completam o elenco alguns rostos desconhecidos por aqui, mas que transmitem grande expressividade. Destacam-se Adjoa Andoh e Patrick Lyster, como, respectivamente, a firme e eficiente secretária de Mandela e o mega preconceituoso pai de François.

Outro aspecto em comum que este filme tem com os citados Menina de Ouro e Gran Torino é que a trama começa mais sóbria, contida, até mesmo sarcástica, e vai aos poucos envolvendo o espectador numa grande catarse emocional. Do Mandela político e visionário que quer usar um campeonato esportivo como forma de união nacional à divertida camaradagem que brota entre seus seguranças negros e brancos, o filme descaradamente leva o espectador a acreditar na utopia da boa convivência entre todas as cores da chamada “nação arco-íris” proposta pelo líder sul-africano.

Mas seria Invictus um filme-cabeça sobre integração racial, aceitação, grandeza e outros sentimentos nobres? Sim, isso também. Mas nem por isso deixa de ser um filme empolgante e cheio de adrenalina nas cenas esportivas. A ponto de deixar todos no escurinho do cinema torcendo por um time de rúgbi, ou seja, vibrando por uma partida de um esporte do qual nem gostamos e cujas regras nem entendemos direito. Mais ou menos como um personagem que diz odiar rúgbi e, ao longo da partida, se rende à emoção dela. Clint Eastwood, do alto dos seus quase oitenta anos, mostra como é que se dirige boas cenas de ação, ao colocar cada espectador dentro de campo com François e seu time. Resumindo: é mais um filmaço do último grande caubói americano. Assim o velho Clint acostuma a gente mal.

Amanhã nos cinemas.

Zumbilândia



Os filmes de zumbi são todos meio parecidos, certo? E a explicação para as pessoas começarem a devorar umas às outras na maioria das vezes não faz lá muito sentido, confere? De olho nessas grandes verdades universais, o novato Ruben Fleischer, já em seu primeiro longa-metragem, mergulha na estética gore dos filmes de zumbi tradicionais para criar situações pra lá de engraçadas, sem nenhum pudor em tirar partido da escatologia e do politicamente incorreto.

E uma das melhores coisas no “terrir” Zumbilândia é justamente o filme não perder muito tempo explicando porquês nem mostrando o início do caos. Logo na primeira cena conhecemos Columbus, um cara meio covarde que talvez seja o último ser humano não-contaminado no que ele mesmo chama de Zumbilândia. Columbus pode até ser um medroso, mas tem se mantido a salvo graças a uma série de regras que estabeleceu para garantir a própria sobrevivência, como se manter em bom condicionamento físico e sempre atirar duas vezes no zumbi que o persegue, mesmo quando este parece morto.

Mas Columbus não está sozinho no mundo. O primeiro a cruzar seu caminho é Tallahassee, caubói machão e casca-grossa que adora matar monstros a pauladas e está seriamente comprometido em encontrar o último Twinkie (bolinho estilo Ana Maria) da face da Terra. Mais adiante se juntam à dupla Wichita e Little Rock, duas garotas nada frágeis que também têm métodos inusitados para garantir a sobrevivência (na verdade, o nome dos personagens são apenas apelidos de acordo com os nomes das cidades ou estados de onde vieram).



O elenco foi bem escolhido, com Woody Harrelson no seu tipo habitual de caubói truculento (uma piadinha metalinguística?) e o simpático Jesse Eisenberg como o sujeito que não tem vergonha em preferir ser um covarde vivo a um herói morto. De quebra, a sempre carismática Abigail “Pequena Miss Sunshine” Breslin. Apenas Emma Stone parece não ter muito a acrescentar além de ser bonita, mas tampouco atrapalha – afinal de contas, todo filme de terror, ou terrir, precisa de um gatinha.

O filme é muito engraçado e avacalha o filme de zumbi seguindo as próprias regras do gênero. Como ponto alto, claro, destaca-se a participação-surpresa de um famoso ator americano. Muito acertadamente, o nome dele não aparece nas peças publicitárias do filme, e é uma pena que algumas pessoas estejam revelando quem é em seus comentários, porque o mais engraçado é justamente quando ele surge do nada e protagoniza os momentos mais hilários de um filme que já é engraçado por natureza. Outro destaque é quando a trupe chega a Hollywood e se depara, dentre outras coisas, com um zumbi caracterizado como Charles Chaplin.

Resumindo, Zumbilândia é para divertir sem preconceitos. Estréia amanhã.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Nine


Rob Marshall deve ser eternamente grato a Baz Luhrmann. Afinal de contas, foi graças ao cineasta australiano que Marshall teve seu filme Chicago coroado de glórias no Oscar 2002. Tudo porque a Academia adora se desculpar, ainda que indiretamente. No ano anterior, o fantástico Moulin Rouge havia conseguido a façanha quase impossível de revitalizar o gênero musical. Pena que depois de conquistar o mundo, o filme de Luhrmann tenha fracassado no teste derradeiro e perdido o Oscar de melhor filme para o insosso Uma Mente Brilhante. O público não gostou, e no ano seguinte o pedido de desculpas veio com a premiação de Chicago – que, embora seja um bom filme, está vários degraus abaixo de Moulin Rouge.

A maior conseqüência disso foi que Rob Marshall passou a se considerar um diretor de peso e, três anos depois, realizou o pretensioso (e bem fraquinho) Memórias de uma Gueixa. Agora, foi a vez de mexer com o clássico Fellini 8 ½ e a coisa ficou esquisita. Eu nem acho que este Nine seja “zero”, conforme classificou a crítica americana, mas o sentimento de decepção é inevitável. É bem verdade que Nine, o espetáculo da Broadway, foi bastante elogiado em sua ambiciosa transposição para os palcos do universo lírico do longa mais autobiográfico de Fellini. Mas creio que um dos motivos para que a peça tenha sido bem-sucedida deve ter sido justamente o fato de se destinar a um meio diferente da obra original. Trazê-la de volta para a telona foi um erro, já que apenas gera comparações com 8 ½, nas quais o filme de Rob Marshall sai perdendo.

A trama gravita em torno do cineasta italiano Guido Contini, um homem em crise profissional e pessoal. Guido sente-se pressionado pela imprensa, ávida por criticá-lo, mas também por sua própria equipe, já que ele não consegue escrever uma linha sequer do roteiro de sua próxima produção e as filmagens estão previstas para começar dentro de poucos dias. Mais do que tudo, Guido está dividido entre sentimentos conflitantes pelas mulheres que estão à sua volta: Luisa, a dedicada esposa; Carla, a amante temperamental; Claudia, a exigente estrela de seus filmes; Lilli, a amiga e colega de trabalho; além da lembrança da mãe e de outras presenças femininas que marcaram sua vida.

A primeira coisa a desanimar em Nine é a qualidade duvidosa das músicas, que parecem sempre engessadas e repetitivas. Está certo que o próprio Chicago já não empolgava muito pelas canções, mas pelo menos as letras eram mais inteligentes e contribuíam para a narração da história. Já as de Nine não passam de umas bobagens exaltando a sedução e charme dos italianos. E isso faz com os números musicais não alcancem o efeito desejado – pelo menos, nesta versão para o cinema. Uma pena, porque os figurinos de Colleen Atwood são bacanas, a direção de arte é interessante e os números são bem coreografados.


A seu favor, Nine tem as interpretações afinadas de Daniel Day-Lewis e Marion Cotillard. Day-Lewis deu cabo da estranha tarefa de se transformar em italiano, embora lhe falte o tempero latino de um Mastroianni. Mas é Marion quem realmente brilha como a esposa resignada que abandonou a carreira em prol do marido egocêntrico e, anos depois, se pergunta se terá valido a pena. Sua atuação é, de fato, luminosa e merecedora de todos os elogios. Já as estrelas Penélope Cruz e Nicole Kidman, apesar de estarem deslumbrantes em cena, de certa forma decepcionam. Culpa, talvez, da abordagem rasa que a trama faz de suas personagens.

O resultado final é uma produção com qualidades e deficiências em igual quantidade. Longe de merecer um Nine, o filme está mais para Five. No máximo, Six. Estreia nesta sexta.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SAG's


Os Screen Actors Guild Awards - ou SAG's - concedidos pelo sindicato dos atores de Hollywood e entregues no último sábado, endossam as escolhas do Globo de Ouro: Jeff Bridges, Sandra Bullock, Christoph Waltz, Mo'nique. No setor televisivo, tudo se repete com exceção de Tina Fey ter levado o prêmio que no Globo de Ouro foi de Toni Collette. De resto, tudo idêntico.

Mas uma única e grande discordância marcou as escolhas dos atores: o prêmio "melhor elenco" (melhor filme disfarçado, já que o SAG só pode premiar interpretações) foi para Bastardos Inglórios. Isso significaria uma reação do filme de Tarantino diante do arrasa-quarteirão Avatar?

Vamos esperar o dia 7 de março para o tira-teima definitivo: o Oscar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Amor Sem Escalas


Jason Reitman tem apenas 32 anos e três longas na sua filmografia, além de alguns curtas e dois trabalhos para a TV. Mas o breve currículo não traduz o (merecido) prestígio que o jovem cineasta alcançou em poucos anos. Seu longa de estreia foi o ácido e inteligente Obrigado por Fumar, seguido pelo despretensioso e doce Juno. Este último, além de ter dado à roteirista Diablo Cody o Oscar de melhor roteiro original, levou Jason um patamar acima com sua primeira indicação ao Oscar de melhor diretor. Seus três filmes tem alguns pontos em comum, como os diálogos extremamente bem-escritos e o olhar sarcástico – mas não desprovido de sentimento – sobre as relações humanas contemporâneas.

Amor Sem Escalas não é um bom título para Up in the Air (“nas alturas”, numa tradução aproximada) por sugerir uma comédia romântica tradicional. E este filme está muito mais para uma comédia existencial do que romântica. A história é centrada em Ryan Bingham, um cara cujo trabalho é viajar pelo país despedindo funcionários de empresas em crise e – pior – tentando convencê-los de que a dispensa é a melhor coisa que poderia ter lhes acontecido. Ryan adora o fato de viver praticamente o ano inteiro em hotéis, aviões e aeroportos. Sua vida cabe numa valise e seus bens mais preciosos são os diversos cartões de fidelidade de empresas aéreas, hotéis e locadoras de automóveis, das quais é sempre membro especial – não precisar entrar nas filas de check-in lhe dá uma tola sensação de poder. Sua ambição maior é atingir a meta de 10 milhões de milhas voadas e obter um cartão de platina que só foi dado a seis pessoas antes dele. Em suas próprias palavras, mais gente já pisou na Lua.

Mas o mundo ideal de Ryan ameaça ruir quando seu chefe começa a dar ouvidos aos projetos de Natalie, uma nova e ambiciosa funcionária que acha que é mais produtivo e barato que o trabalho de Ryan seja feito via webcam. Ou seja: ele não precisaria mais viajar e poderia fazer tudo da própria sede da empresa. Ryan se desespera diante da aterrorizante perspectiva de ter um lar permanente e, para provar que sua função necessita do contato pessoal, obriga Natalie a acompanhá-lo na viagem seguinte. O homem que vive de dizer às pessoas que elas não são mais necessárias de repente se sente, ele próprio, obsoleto. Ao mesmo tempo, Alex, uma charmosa executiva que leva a mesma vida nômade que Ryan, começa a balançar suas convicções a respeito das vantagens da solidão e da independência.


De carona no mote da crise econômica e das demissões em massa, o filme nos apresenta um personagem que tem um trabalho nada estimulante, mas que lhe permite viver em permanente estado de suspensão. Sem raízes, vínculos afetivos ou nem mesmo algo que possa ser considerado de fato uma residência, Ryan é feroz adepto da satisfação instantânea e da rotina descartável e provavelmente poderia ter passado o resto da vida nessa letargia se não fosse confrontado com duas mulheres especiais: Alex, que mexe com seu coração, e Natalie, que mexe com seus valores. Há dois momentos que deixam particularmente evidente a redoma que Ryan criou a seu redor: um é quando ele diz que no ano anterior passou 322 dias viajando contra 43 dias de tédio em sua casa, e outro quando ele reencontra as duas irmãs e não consegue articular nada interessante para dizer a elas.

O elenco está muito bem, justificando as indicações que recebeu ao Globo de Ouro. George Clooney, nosso Cary Grant da atualidade, pode até estar sempre fazendo o tipo habitual, mas o faz com uma dose de sarcasmo e auto-ironia que torna impossível resistir a seu charme. Destaque para a cena em que Ryan ouve Natalie dizendo ao namorado por telefone que não tem interesse nele porque ele é velho. A elegante Vera Farmiga empresta muita sinceridade e interessantes nuances à sua misteriosa personagem. E Anna Kendrick, descoberta em Crepúsculo, é uma grata surpresa, com sua espontaneidade e inesperada veia cômica. Também é bom ficar de olho nas ótimas participações-relâmpago de J.K. Simmons e Zach Galifianakis (o cunhado doidão de Se Beber, Não Case!). São do tipo se piscar, já era.

Assim como ocorre em Juno, tem um momento perto do desfecho em que o espectador é levado a pensar que o filme – tão crítico até então – vai derrapar na pieguice e colocar tudo a perder. E, exatamente como em Juno, tudo não passa de uma pequena provocação, que apenas pretende mostrar que a vida não é tão simétrica como nos querem fazer crer as fórmulas viciadas das comédias românticas. Amor Sem Escalas é um filme verdadeiro, engraçado, por vezes cruel, com personagens que não são heróis nem vilões, apenas pessoas tentando administrar o caos e a decepção em suas vidas. Portanto, ele não propõe soluções mágicas, nenhuma guinada de 180º e muito menos nos empurra goela abaixo o happy end imbecil – apenas o possível. É um filme que não tem exatamente um grande momento e sim um somatório perfeito de partes, onde roteiro, direção e interpretações funcionam a contento e conquistam a simpatia e empatia do espectador sem que ele se dê conta disso. Enfim, um pequeno grande filme. Estreia nesta sexta.

Pré-Lista de Filmes Estrangeiros


Foi divulgada ontem a pré-lista dos nove filmes estrangeiros que seguem brigando por uma das cinco vagas no Oscar 2010. São eles:

A Fita Branca (Alemanha)
O Segredo dos Seus Olhos (Argentina)
Samson & Delilah (Austrália)
The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner (Bulgária)
Kelin (Cazaquistão)
O Profeta (França)
Winter in Wartime (Holanda)
Ajami (Israel)
A Teta Assustada (Peru)

Uma coisa que chama a atenção é a inclusão de dois filmes sul-americanos, A Teta Assustada e O Segredo dos Seus Olhos. E eu particularmente torço entusiasticamente por este segundo, apesar do favoritismo de A Fita Branca. Também estranha-se a ausência do italiano Baaria, que era considerado forte candidato. Os finalistas serão conhecidos no dia 2 de fevereiro, quando será divulgada a lista completa de indicados, e os vencedores, no dia 7 de março.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Dica em DVD


Downloading Nancy, um filme bastante perturbador a que assisti no Festival do Rio de 2008, foi lançado recentemente em DVD, com o apelativo título Distúrbios do Prazer (!). Segue abaixo link para o texto que escrevi na época. Apenas espero que esta versão lançada tão tardiamente em DVD seja igual ao petardo a que assisti há um ano e meio e não uma tentativa adocicada de atingir um público maior:

http://artesesubversao.blogspot.com/2008/10/downloading-nancy.html

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Mangiando e Bevendo


Atendendo ao pedido do meu caro amigo Pedro no post lá embaixo (como se fosse preciso alguém pedir), sigo falando mais um pouco da minha breve estadia na Itália. Neste post, mais especificamente das delícias etílicas e gastronômicas.

Posso dizer que passei os dez dias me entupindo de vinho, por três razões bem simples: 1) eu gosto de vinho; 2) estávamos no inverno; 3) é mais barato beber vinho do que cerveja ou refrigerante. Só para dar uma idéia, um litro do bom vinho da casa, o que dá fartamente para duas pessoas, sai de 10 a 12 Euros (30 reais), enquanto uma única latinha de cerveja custa 4 (10 reais). Em compensação, a Guiness, que aqui no Brasil é um absurdo de cara, lá custa o mesmo preço das outras cervejas. E vale lembrar que isso é preço de restaurante. No meu primeiro dia em Veneza, encontramos numa feira um bom Cabernet local por 2,50 Euros, ou seja, menos de 7 reais a garrafa, incrivelmente barato para um vinho italiano – afinal de contas, na Itália qualquer vinho é italiano.

Sobre as famosas pastas, não posso falar muito porque não sou muito chegada em macarrão. Mas fiz a festa com as pizzas, que, ao contrário do que dizem alguns detratores, não são grossas coisa nenhuma. A massa é fina, crocante, quase sempre assada em forno a lenha. Bem parecida com a das boas pizzarias daqui (ou seria o contrário?). Os sabores é que são um pouco diferentes, eles tem certa predileção por botar cogumelos em tudo e também o famoso salame picante. Mas se acha com facilidade as mais conhecidas daqui, como calabresa, margherita ou quatro queijos (quattri formaggi).

Existem, ainda, muitas paninerias, com enorme variedade de sanduíches. Nestas casas, geralmente eles ficam expostos numa grande vitrine e o cliente escolhe na hora, quando o panino é posto numa chapa para esquentar, derreter o queijo e ficar com aquela aparência grelhada. O pão costuma ser o ciabatta ou um redondo cujo nome eu não sei. Mas os panini são todos uma delícia, o de presunto de Parma (que lá se chama presunto curdo) e mussarela (branquinha, e muito gostosa) é um verdadeiro sonho! Outra coisa que se vê muito por lá é um pãozinho recheado com azeitonas verdes (chama-se fornarina, se não me engano). Bem gostoso, principalmente se você passar um requeijão nele.

Os doces e sorvetes são capítulo à parte. Muitas calorias à parte, diga-se de passagem. As gelaterias, com suas vitrines coloridas, são irresistíveis, independentemente do frio. É como se tivesse uma Sorveteria Itália a cada esquina, só que com maior variedade ainda de sabores. E as pasticerias, com seus doces folhados e cookies gigantes, também são de tirar qualquer um do sério. Eu comi um folhado de pistache com chocolate que eu acho que nunca vou esquecer. Detalhe: a massa folhada era feita com pistache e o recheio era de chocolate cremoso com gotinhas por cima. Também teve um mousse de avelã, laranja e canela sensacional. Era realmente possível sentir os três sabores, de forma muito distinta. Nossa, vamos parar por aqui porque lembrar desses doces está me fazendo ficar com fome! Por ora, é só.