Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

A Proposta


Sandra Bullock despontou para o mundo como a namoradinha do Keanu Reeves no blockbuster Velocidade Máxima e, depois disso, basicamente enfileirou uma comédia romântica atrás da outra (Enquanto Você Dormia, Da Magia à Sedução, A Casa do Lago, Amor à Segunda Vista). E o pior é que suas poucas aventuras fora do gênero foram desastrosas, como os pavorosos A Rede e Cálculo Mortal. Bom, os anos foram passando e Sandra continua em um patamar não muito acima do que estava no início de sua carreira. É bem verdade há uma única exceção em sua superficial filmografia: Crash. Só que ninguém se lembra dela por esse filme e sim por bobagens como Miss Simpatia.

A Proposta vem apenas para engrossar a lista de típicos filmes da atriz. Desta vez ela é Margaret, uma implacável editora de livros. Temida e odiada por seus funcionários, que trocam mensagens de alerta no estilo “a bruxa está chegando” cada vez que ela desponta do elevador, Margaret tem como burro de carga preferencial seu assistente Andrew. O rapaz é submisso a ponto de tomar o mesmo tipo de café que a chefe só para poder oferecer o seu no caso de derrubar o dela.

Acostumada a controlar todas as situações, Margaret leva um tremendo susto quando descobre que está prestes a ser deportada para o Canadá, seu país de origem, porque ignorou os trâmites que deveria ter seguido para obter um visto de permanência. Desesperada para dar uma solução a seus chefes, ela não titubeia: diz que está noiva de Andrew. Ele tem que concordar em participar da farsa sob ameaça de ser demitido e ver soterrada de vez sua ambição de chegar a sub-editor na empresa, depois de ter trabalhado duro por três anos.

Claro que as exigências do departamento de imigração obrigarão o falso casal a ter que passar bastante tempo junto para que tenham condições de sobreviver a uma exaustiva entrevista para apurar se o noivado deles é real e que, na verdade, tem como único propósito pegá-los numa mentira. Mais ou menos como já foi visto em tantos outros filmes que giram em torno da mesma temática, a aproximação forçada revelará facetas e fragilidades de cada um que a outra parte não conhecia e aos poucos eles se descobrirão irremediavelmente apaixonados um pelo outro.


Mas é preciso por mais lenha na fogueira. Numa dessas coincidências que só acontecem nas comédias românticas, o final de semana que Andrew e Margaret tem para se conhecer antes da fatídica entrevista na manhã de segunda é justamente o mesmo em que o rapaz viajaria para a casa de seus pais no Alasca. E lá se vão os dois encarar a família dele, como se já não estivessem enrolados o suficiente. Claro que a família que os aguarda é diferente, cheia de excentricidades, mas no fundo adorável e fará com que a mandona executiva repense seus valores. Também é evidente que a intimidade forçada criará situações cômicas e constrangedoras, a maioria delas envolvendo nudez imprevista (e dona Sandra faz questão de mostrar de modo excessivo o quanto está com o corpo bem cuidado).

Enfim, o que temos é Sandra Bullock em um típico filme de Sandra Bullock e desta vez com o simpático Ryan Reynolds arrastado para seus domínios. Os dois não combinam nada como casal – o que não tem absolutamente nada a ver com a diferença de idade – e o ator dá a impressão de estar desconfortável no papel ao longo de todo o filme. Talvez não tão desconfortável quanto Betty White, que é obrigada a pagar os maiores micos do filme como uma vovó chegada numa pajelança, mas ainda assim...

A Proposta estréia sexta. Depois não digam que eu não avisei.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

17 Outra Vez


A situação do personagem estar em um corpo diferente do seu é um mote mais velho do que andar pra frente nas comédias americanas. Seja por possessão (Um Espírito Baixou em Mim), troca de identidade (Sexta-Feira Muito Louca e Vice Versa) ou realização do desejo de ser mais velho (Quero Ser Grande e De Repente, 30), volta e meia aparece um filme onde alguém se vê às voltas com um corpo que não lhe pertence. 17 Outra Vez encaixa-se no último caso, com a única diferença de que o protagonista é um homem adulto que volta a ter sua aparência de 17 anos.

No seus bons tempos do colegial, Mike O’Donnell foi um astro do basquete e tinha um futuro promissor como atleta. Mas na noite em que deveria ser descoberto por um olheiro, sua namorada Scarlet lhe revela que está grávida e ele resolve abrir mão de tudo para arrumar emprego e se casar. Vinte anos depois, Mike está completamente insatisfeito com sua vida. Seu casamento está desmoronando, já que ele criou o hábito de culpar Scarlet por todos os dissabores; a promoção pela qual batalhou foi dada a outra pessoa; seus filhos adolescentes o acham um chato e mal lhe dirigem a palavra. A única pessoa que o compreende é Ned, o amigo nerd do colégio que ficou milionário.

Ao visitar o antigo colégio, Mike é tomado pela nostalgia e deseja ardentemente ter uma nova chance. Pronto! Ele tem dezessete anos novamente. Mas como explicar à família o que aconteceu? Como comparecer à audiência de divórcio no corpo de um garoto? Ned resolve ajudá-lo e inventa que Mike é seu filho bastardo, matriculando-o novamente na escola, onde ele é colega de classe de seus filhos. Tentando lidar com as inevitáveis confusões de voltar a ser adolescente e driblando os compromissos pendentes de sua vida adulta, Mike ainda terá que repensar as escolhas que fez vinte anos antes.

A partir desse argumento, já se pode adivinhar todo o restante do filme e também como a maioria das situações se desenrolarão. É claro que há uma mensagem edificante em prol da família e Mike vai descobrir a duras penas que é o único culpado pelo desfecho que as coisas tomaram em sua vida. Com certeza também vai compreender que tem filhos legais, que apenas estão desorientados, e uma esposa que ainda o ama apesar de todas as suas burradas e que foi ele próprio quem detonou esses relacionamentos. E é claro que não precisa ser médium para saber que toda aquela idealização da vida perfeita que ele teria se tivesse continuado na carreira de atleta não passa de ilusão da sua cabeça e que através dessa experiência ele vai aprender o real valor do que possui, etc e tal.


Na verdade, 17 Outra Vez é um filme realizado com um único propósito: mostrar ao mundo que o bonitinho Zac Efron sabe fazer mais do que cantar, dançar e ser o sonho de consumo das menininhas de quinze anos. Efron é conhecido basicamente pelos três longas da série High School Musical e também pela versão cinematográfica de Hairspray. Todos trabalhos essencialmente musicais, e certamente esse filme tem como intenção primordial provar que o rapazinho também sabe atuar. Bom, ele sabe. Menos mal. É claro que sua boa figura em cena é valorizada pelo fato de sua versão adulta ser Matthew Perry, a sem-gracice em pessoa.

Burr Steers, que dirigiu há alguns anos o interessante A Estranha Família de Igby e foi o roteirista de Como Perder Um Homem em 10 Dias, não tem muito o que dirigir aqui. A trama caminha frouxa para seu inevitável final feliz e não há muito o que fazer. O longa diverte em alguns momentos e tem algumas cenas engraçadas? Sim, é claro. Mas, como um todo, é dispensável para quem passou da adolescência e já não é mais afetado pelo azul brilhante dos olhos de Zac Efron. Estréia sexta-feira.

Casamento Silencioso


O cinema romeno vem se destacando por apresentar filmes vigorosos, críticos e originais a despeito de seu mercado minguado e indústria tímida. Filmes premiados como A Leste de Bucareste e Como Festejei o Fim do Mundo vem chamando a atenção do mundo para essa cinematografia de humor e criatividade bastante inusitados. Em 2007, Cristian Mungiu venceu o prêmio máximo do Festival de Cannes com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Numa época em que cinematografias mais tradicionais tem apresentado pouco de realmente inovador, o cinema romeno surge como um grande gerador de novidades. Mais um exemplar que vale muito a pena conhecer é Casamento Silencioso, que chega às telas brasileiras nesta sexta.

Nos dias atuais, uma equipe de reportagem chega a uma antiga vila romena para fazer uma reportagem sobre fenômenos paranormais. O lugar ermo e desolado é habitado apenas por mulheres enlutadas. Os jornalistas estranham e pedem ao prefeito, único homem da região, que lhes conte o que ocorreu ali. Essa é a senha para que se desenrole o longo flashback que constitui o filme.

O ano é 1953 e a Romênia vive sob o jugo do comunismo russo, apesar de reunir poucos simpatizantes ao regime. A austeridade russa era vista com deboche e sarcasmo pelos alegres e barulhentos habitantes daquela região de camponeses onde as desavenças resolviam-se na base de piadas e vinho na taberna local. Mara e Iancu, jovens no fervor da paixão, vivem se embrenhando na floresta para transar, o que vem a público e causa tumulto entre os familiares do casal. O pai da moça quer forçar o casamento e o pai do rapaz defende a tese de que ela se entregou porque quis. Depois de um princípio de briga, Iancu restabelece a paz ao aceitar se casar com Mara e tudo termina em abraços e bebedeira generalizada. A data é marcada e cada habitante se empenha nos preparativos da grande festa coletiva.


Justamente no dia do casamento, chega à vila a notícia da morte de Stalin. O governo russo decreta sete dias de luto oficial e, durante essa semana, nenhum tipo de comemoração será permitida. A festa, que estava começando, é interrompida por um oficial russo, que ordena que a comida seja recolhida e as mesas desfeitas. Mas os moradores não pretendem abrir mão de toda celebração organizada e resolvem continuar a festa em segredo. Silenciosamente.

Demonstrando um senso de humor pra lá de peculiar, podemos perceber que a trama nos prepara desde os primeiros instantes para o casamento silencioso do título. Àquela altura, já não nos parece improvável que aquelas pessoas arrisquem a vida e a liberdade em nome de uma festa. Porque sua alegria de viver significava a própria liberdade. Era o que os mantinha unidos e lhes dava identidade como povo.

A reunião silenciosa e a criatividade com que eles continuam a celebrar é uma das mais interessantes sequências que já tive oportunidade de ver no cinema. Simplesmente antológica. Embora a situação seja essencialmente cômica, o trágico insinua-se no ar e cada acontecimento divertido mistura-se a um sentimento de tensão muito forte. Em diversos momentos o espectador sente-se indeciso entre achar graça ou temer pelo destino daquelas pessoas que bravamente resistem a serem tolhidas em seus direitos. Mesmo que o direito em questão seja algo aparentemente simples como celebrar um casamento.

A mensagem da história vai muito além do acontecido naquela pequena vila e fala de um país silenciado que transforma no bom humor e na obstinação em não abrir mão de seu estilo de vida uma forma de resistência. Um grito de liberdade em um brinde silencioso, em uma banda que toca uma canção inaudível, em um agradecimento passado de ouvido em ouvido.

Embora a sequência do casamento seja o ponto culminante do filme, outro momento que vale a pena destacar e serve como prenúncio do que está para ocorrer é quando representantes do governo russo encarregam o prefeito de exibir um filme para a população. Diante de seus argumentos de que não possuem luz elétrica, o pobre homem é intimado a dar seu jeito sob pena de ser acusado de impedir a expansão cultural do povo. O que se vê no cinema improvisado é pura propaganda ideológica e logo aquelas pessoas mais interessadas em bem viver do que em ouvir discursos vazios se distraem e criam uma divertida pantomima ao estilo de Chaplin e dos irmãos Marx. Que ocorre na platéia, e não na tela.

Por tudo isso, o longa do diretor e roteirista Horatiu Malaele é mais um ótimo exemplar do cinema que vem do leste europeu. Que bons ventos continuem soprando de lá.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Pacto de Sangue: a essência do film noir


O termo film noir foi utilizado pela primeira vez por um crítico chamado Nino Frank em 1946. Antes disso, alguns cineastas realizaram filmes do estilo sem que ele assim fosse nomeado. Quando pensamos no exemplar mais marcante deste gênero que teve sua era de ouro no cinema americano das décadas de 40 e 50, o primeiro longa que vem à mente é Pacto de Sangue. Terceiro filme de Billy Wilder e sua primeira obra-prima, Pacto de Sangue pode ser considerado a própria essência do noir.

Vejamos as principais características do estilo: atmosfera pessimista, fotografia escura e estética influenciada pela angulosidade dramática do expressionismo alemão. Confere. No lugar do herói sem mácula, um homem comum de moral duvidosa. Em vez da mocinha voluntariosa, a mulher fatal cínica e ambiciosa que talvez, no final das contas, ame o protagonista. Confere. Diálogos espertíssimos e cheios de duplos sentidos, onde conversas corriqueiras ganham forte conotação sexual. Confere. Essas são apenas algumas das características que foram criadas por esse filme em 1944 e continuam sendo copiadas mundo afora mais de sessenta anos depois.

Logo na cena de abertura, numa ousadia semelhante à que o diretor cometeria anos depois em Crepúsculo dos Deuses, o próprio protagonista resume para nós o final da trama. Em vez da voz em off, ele faz sua confissão para um ditafone, de corpo presente na tela. A gravação é endereçada a seu chefe e amigo Barton Keyes: ele, Walter Neff, agente de seguros sem manchas na reputação até então matara um homem:

“Sim, eu o matei. Matei por dinheiro. E por uma mulher. Não consegui o dinheiro nem a mulher. Bonito, não?”

Podemos dizer que o restante do filme é um longo flashback. Numa tarde ensolarada na Califórnia, Neff bate à porta do Sr Dietrichson para tentar renovar uma apólice de seguro prestes a vencer. Quando Phyllis, a sra. Dietrichson, aparece no alto de uma escada, o espectador já pressente que Walter está irremediavelmente condenado. Como em todo bom film noir, o protagonista é esperto o suficiente para saber que está se metendo numa enrascada e fraco o suficiente para, ainda assim, se deixar enredar nela.


“ - Você quer que ele tenha a apólice sem saber disso. E sem que a seguradora saiba que ele não sabe. É uma cilada, não?
- Há algo errado com isso?
- Não, acho adorável.”

Seduzido não apenas por Phyllis mas também por um certo orgulho intelectual que o faz se julgar capaz de cometer um crime perfeito debaixo das barbas de seu eficiente e intuitivo supervisor, Keyes, Walter Neff arquiteta um intrincado esquema para que o assassinato do Sr Dietrichson pareça um acidente: na noite em que ele vai fazer uma viagem de trem, matam-no a caminho da estação. Depois Walter embarca no trem e, evitando fazer contato visual com quem quer seja, passa-se por Dietrichson. O passo seguinte é pular do trem no ponto em que combinara com Phyllis, retirarem o cadáver do carro e jogá-lo nos trilhos do trem. Definitivamente, um acidente. E tendo acontecido em um trem, tal fatalidade daria à beneficiária do seguro uma indenização dupla (double indemnity, como no título original) graças a uma cláusula que a seguradora usa como chamariz, cobrindo em dobro situações que raramente acontecem.

Engenhoso? Sim. Perfeito? Em teoria. A polícia dá-se por satisfeita, mas Keyes não. E é como diz o velho ditado, quem procura acaba achando. E de tanto pensar, um dia ele deduz passo a passo todo o plano (mais ou menos como faz aquele policial no final de Match Point). A única coisa que Keyes não consegue deduzir, e nunca conseguiria sozinho, é a identidade do cúmplice de Phyllis. Não por inépcia e sim porque sua objetividade estava obliterada pelo afeto que sente por Walter. O próprio Walter parece temer menos a polícia e seu destino do que a decepção que inevitavelmente causará a Keyes. Interessante notar que a relação de amizade entre os dois homens é o único sentimento verdadeiro e inequívoco da história.

A fotografia excepcional de John Seitz, que criou toda uma gama de texturas e nuances para a penumbra opressiva na qual vive mergulhada a casa dos Dietrichson, tem um apelo fundamental para a trama. As imagens por si só contam uma história. Mesmo o espectador mais desatento não pode deixar de se maravilhar com as tomadas que mostram os personagens perpassados pelas faixas de sombra e luz das persianas. Simplesmente genial. Outro ponto interessante é o fato da trama ser ambientada na Califórnia, o que faz um contraste bem significativo entre a luminosidade exterior e a atmosfera sombria dentro da casa dos Dietrichson. Intenções que a intensa e dramática trilha sonora de Miklós Rózsa ajuda a sublinhar com perfeição.


Baseado numa das histórias do livro Three of a Kind, de James M. Cain, Double Indemnity foi adaptado para as telas pelo próprio Wilder em parceria com Raymond Chandler. Hoje em dia considerado não apenas um grande noir mas um dos melhores filmes de todos os tempos, Pacto de Sangue foi um projeto recusado por muitos atores, que tinham medo de queimar seu prestígio interpretando um personagem amoral como Walter Neff. Também Barbara Stanwick tinha suas reservas em relação ao trabalho, mas não podia recusá-lo por estar sob contrato. O resultado é que essa excepcional trama de adultério, corrupção e assassinato foi indicada a sete Oscars, incluindo melhor filme e melhor atriz para Stanwick.

A atriz certamente ficou marcada (positivamente, é claro) por esse papel. Com seu penteado exótico e sua dissimulação à toda prova, Phyllis pode ser considerada a primeira femme fatale de Hollywood. Também acertada foi a escolha de Fred MacMurray, que faz um tipo essencialmente simpático a despeito das ações vis que comete. Completando o trio, Edward G Robinson é brilhante em cada cena com sua verve irônica e sua metralhadora giratória de sarcasmos.

Coroando tantos acertos felizes, pode-se dizer que Pacto de Sangue não seria o filmaço que vem assombrando gerações se não fosse capitaneado por um gênio da estatura de Billy Wilder, que transformou os maiores percalços em qualidades. Wilder conseguiu realizar um filme totalmente calcado em assassinato e adultério sem mostrar nenhum dos dois na tela. Hollywood vivia uma época de auto-censura e o Código Hays não permitia que “certas coisas” fossem mostradas. Sugeridas, sim. Nunca exibidas. Assim, o que vemos no momento em que Walter assassina Dietrichson é o rosto de Phyllis, mostrando um leve sinal de satisfação. O que, convenhamos, é muito mais instigante do que um estrangulamento explícito. Já a sugestão de sexo é a própria simplicidade: eles se beijam no sofá. Corte. Na próxima cena, estão sentados um em cada canto. Ela retoca a maquiagem, ele acende um cigarro.

E a cena final, perfeita, também foi uma alternativa ao desfecho original censurado. Depois de uma exibição-teste em que foi rejeitada a cena em que Walter Neff morria na câmara de gás (por ser excessivamente realista), o cineasta opta por cortar a história no encontro de Neff e Keyes e com o magistral diálogo:

“- Sabe por que você não adivinhou, Keyes? Eu te digo. Porque o homem que você estava procurando estava muito próximo. Bem do outro lado da sua mesa.
- Estava mais perto do que isso, Walter.
- Eu te amo também.”

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

O Estranho Mundo de Jack


Responda rápido, sem parar para pensar: quem é o diretor de O Estranho Mundo de Jack? Tim Burton, certo? Errado. Embora o filme seja sempre creditado a ele, seu diretor é um cara chamado Henry Selick – o mesmo de Coraline e o Mundo Secreto. Mas tal equívoco é facilmente explicável, já que tanto o cartaz do filme como a capa do DVD duplo lançado recentemente trazem o nome de Tim Burton estampado em letras garrafais. Burton é, oficialmente, o produtor e criador dos personagens. A questão é que poucos longas são tão escancaradamente burtonianos como esse, a começar pela característica trilha sonora de Danny Elfman.

No universo do filme, cada uma das festas é comandada por uma cidade e seus habitantes. Na cidade do Halloween, os moradores são monstros, vampiros e bruxas que trabalham durante o ano inteiro para que a noite em questão seja o mais assustadora possível. Dentre tantas criaturas horrendas, Jack Skelleton é o rei. Venerado por todos, é chamado de o rei da abóbora. Mas está infeliz com a rotina. Como um barracão de escola de samba sinistro, mal se passa um Halloween e todos já começam a planejar o próximo. Jack anseia por algo diferente.

Jack sai andando sem rumo por uma floresta, até que chega num local onde algumas árvores tem sinalizações estranhas como “Natal” e “Páscoa”. Jack entra numa passagem na árvore do Natal e descobre-se na cidade de Papai Noel. Fica maravilhado com as luzes, a neve, os presentes coloridos, a roupa vermelha. Acha tudo tão incrível que decide que esse ano eles devem assumir o Natal também. Para tanto, basta que se livrem de um pequeno inconveniente: Papai Noel.


A partir daí, com Papai Noel sequestrado e monstros encarregados de distribuir presentes, já dá para imaginar a confusão que se forma. Isso é o mais interessante na concepção da trama, que faz com que os personagens reajam dentro dos seus parâmetros. Jack se apaixona pela ideia do Natal, mas a compreende dentro de seu próprio universo de sustos e travessuras. Para ele, é natural dar a crianças presentes que tentam atacá-las.

Uma personagem que não se pode deixar de citar é a boneca de pano Sally, par romântico de Jack. Criada por um cientista doido num esquema meio Frankenstein, a mocinha que se descostura quando quer fugir de alguma encrenca representa o único sopro de meiguice e bom senso naquela terra de lunáticos. Sally lembra bastante Edward Mãos de Tesoura, que havia sido realizado alguns anos antes, e também outra personagem que Burton criaria mais de uma década depois, a Noiva-Cadáver.

O Estranho Mundo de Jack, cujo ótimo e mais do que apropriado título original A Nightmare Before Christmas (um pesadelo antes do Natal) infelizmente se perdeu na tradução, é sobretudo um dos poucos filmes que falam de Natal sem cair na pieguice que a data costuma inspirar. É tocante sem ser brega, cativante sem ser apelativo. Um clássico eterno.

O DVD duplo lançado há pouco traz uma série de extras no disco 2, como cenas deletadas, making of e storyboards. Mas a boa surpresa é a inclusão de dois curtas de Tim Burton: Vincent e Frankenweenie – este último está em vias de ganhar uma versão em longa-metragem. Vincent, de 1982, é uma animação em estilo expressionista sobre um garoto de sete anos que vive num mundo gótico imaginário e sonha ser Vincent Price, com direito a citações do Corvo de Edgar Allan Poe e narração do próprio Price. Frankenweenie, de 1984, é um live action fofíssimo sobre um garoto muito bom em ciências que ressuscita seu cãozinho que fora atropelado. O filme é, na verdade, uma versão da história de Frankenstein ambientada nos anos 50, com direito a perseguição no moinho e tudo. Muito bacana mesmo.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Jean Charles


Jean Charles de Menezes, um imigrante brasileiro em Londres que ficou conhecido pelo mundo da maneira mais trágica possível: quando foi assassinado pela polícia britânica ao ser confundido com um terrorista. Jean Charles, o filme, pretende mostrar os últimos meses na vida do eletricista mineiro, a partir do momento em que sua prima Vivian chega na Inglaterra para morar com ele. O grande problema inicial em realizar tal filme é que, antes das funestas circunstâncias de sua morte, Jean Charles era uma pessoa absolutamente comum. Então não existe no filme um encadeamento de acontecimentos que levem até o trágico desfecho, já que seu assassinato não teve uma causa.

O que fazer, então? Um filme-denúncia sobre a truculência e despreparo das autoridades inglesas pós-onze de setembro ou uma crônica sobre os sonhos e esperanças dos brasileiros que tentam fazer a vida na Europa? O filme acertadamente opta pela segunda alternativa. Segundo o longa, o protagonista era um sujeito carismático que sempre tentava ajudar os amigos e batalhava para melhorar de vida – embora nem sempre de forma ortodoxa. Mas causa estranheza que a boa opção inicial resulte em um filme que mantém um tom de distanciamento para com seus personagens. Quando chegamos à esperada sequência no metrô, a abordagem quase documental da cena crucial deixa o espectador pouco envolvido. E, a partir de então, com a saída de Selton Mello da tela, realmente há uma curva descendente na trama.

Outro ponto que incomoda um pouco é o excesso de menções a ataques terroristas feitas ao longo da história. Além de reforçar o tom documental, ainda soa como uma justificativa para a atitude imperdoável dos policiais que assassinaram Jean Charles. Ainda assim, Jean Charles é um filme bem produzido e dirigido com eficiência. Podemos até discordar dos caminhos tomados pelo diretor Henrique Goldman, mas não se pode deixar de reconhecer sua competência.

O grande trunfo, como já era de se esperar, é ter o incrível Selton Mello no papel-título. Selton sempre acrescenta um tempero único a seus personagens e ainda conta com uma simpatia incondicional por parte do público. Destaque para seu divertido encontro com Sidney Magal. Também estão bem à vontade em seus papéis Vanessa Giácomo e Luis Miranda. O que nos leva a outra decisão pouco acertada da produção, que foi colocar a prima do verdadeiro Jean Charles para fazer seu próprio papel. Nada contra lançar novos atores, o que, aliás, é uma das funções do cinema, mas neste caso houve um desnivelamento claro nas cenas em que a moça contracena com Selton, Vanessa e Luis.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Festa de Família


Na década de 90, um grupo de cineastas dinamarqueses lançou o movimento Dogma, que exaltava uma maneira de fazer cinema despojada de artifícios. O Dogma 95 pregava dez mandamentos básicos, como o uso de uma única locação, câmera na mão, proibição de luz artificial e trilha sonora que não faça parte da cena, dentre outros. Ou seja, o que se vê na tela deveria ser o mais próximo possível das condições da vida real. Hoje em dia, ninguém mais leva tal radicalismo a sério. Mas certamente um dos frutos mais consistentes da experiência é o longa Festa de Família, de Thomas Vinterberg. Adaptado para o teatro pelo dramaturgo David Eldridge, a peça ganha sua primeira montagem no Brasil pelas mãos do ator e diretor Bruce Gomlevsky.

A trama se passa durante a comemoração dos 60 anos do patriarca de uma família. Christian, o filho mais velho, resolve dar um basta em anos de silêncio e revelar à mesa, diante de toda a família, os abusos sofridos nas mãos do pai quando criança. Abusos esses que teriam sido o motivo pelo qual sua irmã gêmea se suicidara. Seriam verdadeiras suas acusações, ou apenas uma provocação de filho rebelde? E o restante da família, que sabe a respeito? E os outros dois irmãos, também foram molestados? A dubiedade perpassa os presentes, enquanto a refeição é servida em fina louça. O incesto não é o único pecado posto à mesa, também podemos entrever preconceito (social e racial), intolerância e outras perversidades consanguíneas.

Gomlevsky produz, dirige e interpreta o personagem Christian nesta montagem que ocupa o Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil. Ao entrar na sala (que é concebida para se adaptar à proposta cênica vigente), o público tem que tomar uma interessante decisão: sentar-se à mesa junto com os atores ou à volta desta. O fascinante cenário de Bel Lobo é composto por quatro mesas que formam um quadrado. Junto à parede, num patamar acima, são distribuídas cadeiras que formam um quadrado exterior. No espaço deixado no centro das mesas e nas laterais externas, pequenos palcos. As cenas acontecem à mesa e ocasionalmente em um desses outros espaços.

Sempre atraída pelo inusitado, é claro que escolhi um lugar à mesa. E recomendo a quem for assistir à peça que faça o mesmo. É incrível a perspectiva que temos do espetáculo quando visto do mesmo plano dos atores. Tal disposição nos transforma em participantes daquela festa desagradável. Não como alguém no núcleo central, é claro, mas talvez um primo distante que não sabe o que fazer diante da lavação de roupa suja de seus parentes. Uma testemunha constrangida de revelações estarrecedoras. À saída do teatro, uma senhora comentou comigo no elevador que, caso estivesse sentada ao lado do ator Bruce Gomlevsky no momento em que ele chora desconsolado, teria dado um abraço nele. Pena, desconforto, vergonha. Qualquer que seja a reação, apenas prova a força extra que a ótima cenografia dá ao texto, que já é denso e impactante por natureza. O elenco é bom e coeso, capitaneado com vigor e verdade por Gomlevsky, que dá colorido e dramaticidade aos alternados estados de espirito de Christian.

Assistir a Festa de Família... Aliás, assistir não é bem a palavra. Digamos que participar desse jantar é uma experiência singular. É preciso parabenizar Bruce Gomlevsky e a sua recém-criada Cia Teatro Esplendor pela iniciativa de trazer a nós essa trágica festa. A temporada vai até 2 de agosto.

Festa de Família (Festen), de David Eldridge. Direção: Bruce Gomlevsky. Com Bruce Gomlevsky, Julia Carrera, Risa Landau, Walney Costa, Carlos Veiga, Carolina Chalita, Gustavo Mello, Joelson Gusson, Julia Limp Lima, Leonardo Corajo, Otto Jr., Peter Boos, Ricardo Damasceno, Teresa Fournier. Teatro III - CCBB. Quarta a domingo, às 20h. Ingressos 10,00.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Rebobine, a exposição

Vejam abaixo fotos de alguns dos divertidos cenários customizáveis da exposição Rebobine, Por Favor, que acontece no Centro Cultural Banco do Brasil até 09 de agosto:
Para quem não sabe do que se trata, mais detalhes no link abaixo:

http://artesesubversao.blogspot.com/2009/05/rebobine-por-favor-exposicao.html

Sábado, 20 de Junho de 2009

Novidades do cinema francês invadem o Rio


Até a próxima quinta-feira, o carioca poderá conferir sete longas franceses inéditos. É a mostra Panorama do Cinema Francês, promovida pela Unifrance. O evento, que também está acontecendo em São Paulo, vem reforçar o chamado ano da França no Brasil e promove, ainda, sessões onde o público pode conversar com diretores e atores após a projeção do filme. A abertura ocorreu na noite de sexta-feira, em um Odeon lotadíssimo e com presença de autoridades francesas. O filme escolhido foi Mesrine – O Inimigo Público, Primeira Parte (Mesrine: l’instinct de Mort), de Jean-François Richet. Além do diretor, vieram para o debate os atores Vincent Cassel e Gilles Lellouche. O longa ganhou três Césars 2009: melhor direção, ator e som.

Trata-se da primeira metade do filme que narra a trajetória de Jacques Mesrine, o mais célebre fora-da-lei francês dos anos 60/70. Neste primeiro segmento, acompanhamos sua ascensão de marginalzinho de terceiro escalão dos subúrbios parisienses até tornar-se o inimigo público número um da França, passando por uma temporada explosiva no Canadá. Com um roteiro espertíssimo, que sabe exatamente onde inserir suas elipses, e uma montagem vibrante que deixa o espectador grudado na cadeira e de olhos bem abertos, o filme retrata as nuances de um homem sem limites, ousado e cheio de contradições. Vincent Cassel é corpo e alma da trama, e entrega uma composição que mescla sedução e charme a uma alma sombria e um temperamento irascível. Perfeito.
Acabada a sessão, os convidados responderam a algumas perguntas do público sobre o filme. Que, como não poderia deixar de ser, giraram em torno do processo de escolha e preparação dos atores e também sobre o intenso grau de violência mostrada na tela. Vincent Cassel, que passou um tempo no Brasil recentemente filmando À Deriva, novo filme de Heitor Dahlia, fala e compreende português muito bem. Simpático e animado, o ator disse não julgar seus personagens e que crê que Mesrine era um ser humano como outro qualquer, com seu lado bom e mau. Já o diretor Jean-François Richet declarou que a maior preparação está na boa escolha do elenco e elogiou seu protagonista, dizendo que teria desistido de realizar o filme caso Cassel não tivesse aceito o papel.
“Existem muitos bons atores franceses na faixa dos quarenta anos, mas eu precisava de um que me desse as reações físicas com a intensidade que só Vincent seria capaz.”

Embora a abertura tenha acontecido no Odeon, todas as outras sessões da mostra ocorrerão na sala 1 do Espaço de Cinema, em Botafogo. Confiram abaixo a programação completa:

20/06 (sábado): todas as sessões seguidas de bate-papo com diretor e atores.
15h - Faubourg 36 (idem), de Christophe Barratier. Indicado a 5 Cesars 2009.
18h – Bem-Vindo (Welcome), de Philippe Lioret. Vencedor do Prêmio do Júri Ecumênico e Melhor Filme Europeu no Festival de Berlim 2009.
21h00 - Há Tanto Tempo Que Te Amo (Il y a longtemps que je t’aime), de Philippe Claudel. Vencedor de 2 Césars e indicado a 2 Globos de Ouro 2009.

21/06 (domingo):
15h - OSS 117, Rio Ne Répond Plus (idem), de Michel Hazanavicius.
18h - Horas de Verão (L’Heure d’été), de Olivier Assayas. Indicado ao César 2009 de Melhor Atriz Coadjuvante, em sessão seguida de bate-papo com diretor e atores.
21h – Paris (idem), de Cédric Klapisch. Indicado a 3 Césars 2009, em sessão seguida de bate-papo com diretor e atores.

22/06 (segunda):
13h30 – Faubourg 36
16h – Bem-Vindo
18h30 – Horas de Verão
21h - Há Tanto Tempo Que Te Amo

23/06 (terça):
13h30 – Bem-Vindo
16h - Faubourg 36
18h30 - Há Tanto Tempo Que Te Amo
21h - Horas de Verão

24/06 (quarta):
13h30 – Horas de Verão
16h - Há Tanto Tempo Que Te Amo
18h30 – Bem-Vindo
21h - Faubourg 36

25/06 (quinta):
13h30 – Há Tanto Tempo Que Te Amo
16h - Horas de Verão
18h30 – Faubourg 36
21h - Bem-Vindo

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Tinha Que Ser Você


O compositor de jingles Harvey Shine sempre colocou o trabalho acima de tudo. Tanto que quando sua filha se casa em Londres, ele vai à cerimônia mas dispensa a festa porque precisa voltar correndo a Nova Iorque para uma reunião. O esforço de nada adianta, já que ele perde o avião e também o emprego. Ao afogar as mágoas no bar do aeroporto e já meio de porre, resolve puxar papo com Kate – que só quer ser deixada em paz para terminar seu romance barato e taça de vinho. Kate também leva uma vida solitária, e passa o dia inteiro recebendo telefonemas banais da mãe que não tem o que fazer.

O que poderia surgir desse improvável encontro o espectador já pode deduzir pelo título em português, que além de óbvio ainda pega carona no sucesso da bossa nova. E certamente o longa seria dos mais redundantes se não fosse salvo do lugar-comum pela interpretação inspirada de Dustin Hoffman e Emma Thompson. Hoffman, ator excepcional que andava acorrentado a papéis coadjuvantes em filmes de qualidade duvidosa, finalmente volta a ter o destaque merecido com esse sujeito que não viu a vida passar. E o ator compõe o personagem com propriedade, evitando cair no estereótipo do tipo carrancudo e de maus bofes. Seu Harvey Shine é um cara cordato, apenas meio desprovido de equilíbrio emocional. Assim como a Kate de Emma Thompson é uma mulher simpática e atraente, muito distante de qualquer caricatura de solteirona inglesa. E é o encontro dos dois que faz o filme valer a pena. Só tinha de ser com Dustin e Emma.